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Artigo: Vontade do povo é soberana

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Vontade do povo é soberana

Ronaldo Zulke
Deputado federal eleito (PT)


Após a apuração final das urnas, em que Dilma venceu com uma diferença de 12 milhões de votos, analistas se debruçam sobre os números a fim de compreender os motivos que levaram à vitória da primeira mulher ao cargo político máximo da nação. Entre as “explicações”, uma em especial chama a atenção pela carga de preconceito, a de que Dilma teria vencido “por causa da bolsa-esmola distribuída pelo governo Lula no Nordeste”. A campanha obscurantista de Serra, ao trazer para o centro da disputa o tema do aborto, da fé religiosa e da união homossexual em detrimento do debate sobre a política econômica e social parece haver despertado os demônios irracionais do Brasil profundo.

Alguns continuam a pensar o país a partir da metáfora da Casa Grande e da Senzala, criada pelo escritor Gilberto Freyre nos anos 30. O Sul e o Sudeste fariam parte da Casa Grande, por princípio culta, ilustrada, capaz de formular juízos autônomos. O Norte e o Nordeste comporiam a Senzala, por princípio ignara, alienada, incapaz de tomar decisões conforme a sua consciência. Desconhecem, assim, os progressos realizados ao longo de décadas que nos afastaram do passado colonial e escravagista aproximando-nos dos ideais republicanos através da universalização do ensino, do respeito à legislação trabalhista, da organização da sociedade civil e das políticas públicas de combate às desigualdades que, em período recente, elevaram 36 milhões de pessoas ao patamar de consumo das classes médias. Desconhecem, ainda, os investimentos do atual governo para o desenvolvimento da região nordestina, com a transposição do rio São Francisco e a criação do pólo naval de Recife, entre outras iniciativas que hoje garantem empregos aos habitantes sem que esses precisem pegar um pau-de-arara para tentar a sorte alhures. Neste contexto, os cidadãos em questão votaram na defesa de seus legítimos interesses, de forma consciente.

De resto, vale sublinhar que o Norte e o Nordeste concentram menos de 10% e 25% do eleitorado brasileiro respectivamente, o que não decide nenhuma eleição. Serra teria compensado a desvantagem ali se tivesse vencido por boa margem no Rio de Janeiro (perdeu), em Minas Gerais (perdeu) e em São Paulo (venceu por apenas 1 milhão de votos, o que é pouco considerando o total do eleitorado paulista). Se não conseguiu é porque, mesmo onde os tucanos elegeram governadores no Sul e no Sudeste, os eleitores deram-lhe uma diferença apertada mostrando que a aceitação das políticas ministradas pelo governo federal se estendem a todo o território nacional. Esta é a razão da derrota de Serra e da vitória de Dilma. Sem truque de perdedor para desqualificar a vontade soberana do povo: já bastam as vilanias medievais lançadas no processo eleitoral!

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